Tudo Bem

30/12/2011

Percebi ontem à noite, quando deitei pra dormir.
Eu estava bem. Muito bem. Estranhamente bem. Com bastante sono, era verdade, mas tranquilo, com um mínimo de dores – apesar da última costela partida ainda estar se solidificando – e imerso naquela sensação de despreocupação que aparece quando as contas e as obrigações estão em dia, vivendo sem remédios há mais de uma semana. Me senti bem como há um bom tempo não me sentia. E esse bem estar permanece hoje, agora, presente, nítido, perceptível.
Por que esse bem estar apareceu? O que o causou? Não sei bem. Ultimamente vinha achando que minha qualidade de vida começaria uma leve curva descendente natural, que a minha demora característica em caminhar mais rápido rumo aos meus objetivos e o envelhecimento normal do corpo iriam começar a cobrar cada vez mais seus tributos – e que eu pouco ou nada poderia fazer contra isso.
Mas acontece que hoje estou bem – meu corpo me diz isso à maneira dele… Respiro bem – o ar se insinua diferente nos pulmões… Me movimento bem – há força extra nas pernas e equilíbrio nos ouvidos… Meus passos continuam firmes – sinto a tração no solo nas plantas dos pés… Carrego com fôlego minhas cargas – mochilas e lembranças como que fizeram alguma dieta de sucesso.
O que está acontecendo?
Será que alguma celulazinha de meu corpo, de uma hora para outra, cansada de esperar eu ir e voltar com meus medos e ponderações excessivas, decidiu por si só dar o exemplo e ficar bem só com essa condição não importando mais nada, e isso – sendo virótico e contagioso – espalhou-se por toda a sua volta, em sinapses benfazejas até me açambarcar por completo? Não sei. Cético que sou, só posso classificar o que está ocorrendo como alguma espécie de segurança, que de alguma maneira se me apossou, me ensopa, me encharca e quase que me domina hoje.
Estou (longo suspiro!) bem. Que coisa miserável ter esquecido como era esse estado!…
Será que adentrei (finalmente? Tardiamente? Aos 47?!…) a porta da maturidade?…
Quanto mais isso irá durar?…
Sabe… chega de pensar nisso. Decidi só aproveitar essa boa ideia, esse pequeno presente que me caiu certinho no colo.


Circo: últimos dias

10/11/2011

Todo amanhecer devia ser
Continuar te desejando sem pressa
E com ele equilibrando precariamente essa certeza que não se confessa.

Mau palhaço.

Contorcionista ciática.

Engodo.

Arranha a rabeca da retreta
E se enovelam as serragens
Úmidas de choro.


Citrus

06/08/2011

Estranho, lembrei de repente dos nossos dias que passaram, todos eles, um longo tapete desenrolando recordações, fina ráfia daquelas que só o melhor fiandeiro tece.
Mas lembrei também, vendido, que você me disse “esquece”.


O Assassino Perfeito

14/07/2011

Ele nasceu bicéfalo, estrábico (de um par de olhos) e vesgo (do outro par), anão, negro, homossexual, fanho, gago e tornou-se nerd.
Mas Deus, em sua infinita e insondável bondade, lhe deu um dom único: literalmente o de matar os preconceituosos de rir.


Anotação de Viagem

19/05/2011

O voo não foi demorado. Pelo menos foi o que ele achou quando finalmente, depois de tanto tempo de medos e hesitações, se encontraram no saguão do aeroporto pela primeira vez. Para ele o traslado onírico levara somente algumas dezenas de minutos, sem qualquer escala; mas para ela seguramente décadas haviam se passado. Ele não entendeu direito como a reconheceu, mas em sua cabeça era ela, sem sombra de dúvida, travestida de senhora de toucado grisalho tentando isolá-lo da multidão com aqueles olhos nacarados piscando atrás de lentes fotocromáticas grossas demais. Trocaram cumprimentos desconfortáveis diante daquela situação evidentemente kafkiana e justamente por isso ele não pode deixar de perceber a secura e a fragilidade da pele da mão dela, pejada de sinais senis e esmalte descascado; a outra mão nodosa, que raspou remelas, tremia. Havia um hálito de comida recentemente roída nas proximidades e o sorriso postiço que ela lhe ofereceu lhe corroborou a suspeita de que deveriam ter resolvido suas pendengas há muito, muito tempo atrás.
E que agora, apesar de ser somente 18:20 de uma noite de uma sexta era, miseravelmente, tarde demais.
A respiração dela, que ofegava, ensaiou o que talvez seria um pedido de desculpas aos ouvidos dele, mas ele disse que não precisava, já sabendo que ela sentia que isso não importava – ao contrário da bengala encostada nos assentos, que importava, ao contrário da parabólica cifose adiantada, que também importava, ao contrário de uma libido que não mais existia, humus de curiosidade em que se transformara, e que também por demais importava.
Mas era tarde demais.

O voo de volta retornou vazio, apenas ele viajando com sua família completa de irrealizações. Lá fora, se ele estivesse vendo, nuvens geladas se distendiam quilometricamente dentro da noite.


Última opção

26/04/2011

 
Praqueles dias difíceis
Em que não saberá direito pra onde ir
Lhe restam meus mil rastros, querida, que a trarão direto praqui.


Arcada

31/03/2011

Não é sorriso.
Não é eclosão de ciso.
É esgar.
É nervoso fatalista
Por ter te perdido em definitivo.

 


Inimigo

07/03/2011

Nem aquele paralisante receio
Nem as maquiavélicas auréolas destes seios
São os réus confessos nesta hora;
Descobri em relampejo o culpado oculto de eu ter deixado você ir embora:

Quis te dar tempo. Te dei todo o tempo.
Exatamente esse mesmo tempo que hoje me doa
A matéria prima para continuar doendo.

Porque sei que, sim, o tempo, ele mesmo, é o meu maior inimigo;
Não correu a meu favor jamais
Pela grade alimentando venosamente esse desejo de ter apenas você
Antes de chegar o dia em que eu finalmente não o possa mais.


Insight

17/02/2011

Quando vais perceber
Que és foco desta mercadoria difícil na praça,
A raridade que é gostar de alguém incondicionalmente, de graça?…


Você

02/02/2011

Febre de 37º.
A, K, Q, J de copas e um dois de paus.
A ardência de um dedo quase prensado.
Nome de algum best seller não lembrado.
Morte de gente de bem.
Aquele espirro que não vem.
Uma boa ideia nunca usada.
Uma manhã em sono, desperdiçada.
Uma ligação em silêncio.
Ruço na praia.
Assim é você.
  

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