Sombra

15/02/2014

“A pior hora do dia não é quando escurece e sinto sono, as sombras lentamente se adensando…

É quando amanhece… e acordo.

Porque significa que não morri durante a noite.”

 

 

Dan não envelhecia; simplesmente isso; e era o que mais me assustava.

Descobri mais essa sua particularidade quando desfizemos nosso namoro e eu parti para o norte do país com tudo o que eu tinha, para esquecê-lo de vez, depois daqueles nossos estranhos três anos juntos.

Não, por favor, não me force a lembrar de detalhes, eu peço… Sem perguntas específicas. Deixe-me apenas divagar, passear pelo passado como quem vai a um cemitério mas não visita nenhum túmulo em particular por receio de uma auto-exumação; não quero mergulhar muito fundo naquelas memórias de novo. Me foi muito penoso escapar delas – hoje nem sei se o consegui por completo ainda – de modo que, por favor, imploro que tolere meus desvios de narrativa. Apenas me ouça. E não perca nada. Está pronto?…

No norte, morei numa fazenda do governo. Daquelas estatais, escondidas no fim de estradas de terra, ligadas ao mundo civilizado através de um ou outro fio telefônico precário. Ajudei a plantar hortaliças melhoradas. Alfaces, couves-de-bruxelas, às vezes ervilhas, essas coisas. Comecei a me interessar por agronomia, e fiz alguns anos de duas especialidades afins numa politécnica local pra ajudar a passar o tempo… quando Dan reapareceu.

E estava idêntico ao Dan de antes! Absolutamente idêntico ao rapaz que eu deixara dormindo em nossa cama naquela noite de chuva quando fuji dele..!

E não parecia zangado comigo.

– Oi – disse-me, sorrindo, sorrindo estranhamente, como sempre fazia, sua voz ecoando, mãos enfiadas nos bolsos de calças novas, balançando levemente o corpo, de pé atrás da estufa, me fazendo largar os tubos de ensaio da minha experiência e perder o timming da centrifugação – Vamos continuar de onde paramos? – insinuou.

Não esperava mais vê-lo.

Não esperava mais senti-lo.

Mas ele estava ali. De novo…

Isso foi há onze anos. Contei essa estória toda às Irmãs Carmelitas do Sexto Flagelo, mas elas naturalmente me acharam possessa, tentaram um exorcismo e depois, desistindo, me trancaram aqui por todo esse tempo. Uma cela benta!… Sou eternamente grata a elas por isso!…

 

Dan não tinha família. Uma vez tentei ajudá-lo a encontrar algum parente (oras, todo mundo deve ter pelo menos um ou dois parentes vivos, é matemático!), mas nunca localizei ninguém, e Dan nunca se esforçou para me ajudar. Isso ele desconversava. Nem me dizia em quais colégios estudou. Nunca vi uma carteira de identidade dele. Nunca ouvi ninguém dizer seu sobrenome. Seu passado era um ponto de interrogação com reticências.

No início eu não me importava tanto com isso. Sério. Eu o amava naquela época, e respeitava seus segredos, que eu chamava de estranhezas; os entendia como charmes. Encontrá-lo na praça naquele inverno particularmente gelado – … ele aparecendo parado na minha frente de súbito, igualzinho da maneira que fizera comigo lá na estufa do governo – foi ao mesmo tempo inesperado, renovador e emocionante; eu precisava de alguém para amar e ele preencheu perfeitamente todas (absolutamente todas) as minhas expectativas de um tal modo que a palavra amor finalmente começou a fazer sentido pra mim… até que comecei a notar umas características muito peculiares – e incomodamente aterradoras – em Dan.

E não era tão somente a falta de uma família…

Nenhum animal se aproximava dele, por exemplo. Cães, gatos, pássaros, até insetos, nada; nunca vi Dan abanar a mão para espantar uma mosca ou mosquito. Nunca o ouvi espirrar. Ele não se coçava. Não era bem uma questão de cheiro – eu gostava do leve odor de amêndoas dos cabelos de Dan toda vez que mergulhava neles… Amêndoas… ou pelo menos eu assim achava que cheiravam… Os animais sentiam, sim, a sua presença… mas o evitavam. Dava para se perceber. Nenhum cão o fitava; iniciavam uma longa curva de contorno toda vez que Dan passava por perto deles. Em nossos piqueniques, não tínhamos problemas com formigas ou cobras… mas também não ouvíamos os pássaros de dia… nem os grilos e sapos à noite.

Nos amávamos intensamente nesses passeios…

Não tenho nenhum pudor em afirmá-lo. É a verdade. Nem é um comentário completamente sem propósito, por ser absolutamente particular… Afora tudo o que Dan me tirou – basicamente a tranqüilidade de viver e a confiança na remissão da morte – não posso negar que o prazer físico que ele me proporcionava poderia até valer a pena… se eu não tivesse me decidido por não vender minha alma quando soube que era o que ele queria.

Nunca fui muito religiosa. Coisa estranha numa família de múltiplas tendências místicas. Mamãe era cristã; papai, meio ortodoxo; meus avós, judeus; minha irmã mais velha pregava numa seita nova muito engraçada criada nos anos 80 e meus dois irmãos caçulas gostavam de citar o Dalai Lama. Todos se davam tão bem que parecia até mentira para quem estava de fora. Conversávamos muito sobre espíritos, vida, morte e propósitos das coisas, sempre com tolerância e um respeito ecumenicamente perfeito, eu, porém, nunca me decidindo por qualquer lado… até que os apresentei a Dan. Depois – e não por mera coincidência, hoje sei – cada um deles foi desaparecendo… um atrás do outro… suas vidas tragadas por estranhas fatalidades… Um acidente de carro a baixa velocidade… Um assalto sem testemunhas… Um tombo num piso seco… Uma doença não determinada… Um desaparecimento… Um sono sem despertar… Um afogamento em água que dava pelos joelhos… Dan foi a todos os funerais. Não chorou em nenhum, se bem que pareceu consternado em todos. E saía sempre antes dos ataúdes baixarem em suas covas…

Outra coisa: Dan sempre sabia onde eu estava. Estranhei que ele tivesse demorado tanto tempo para me encontrar depois que fuji dele, mas… soube que ele sabia o tempo todo onde eu estava. Ele me disse que minha pulsação era tão fácil de se separar da multidão que mesmo a quilômetros de distância ele me “ouvia”, dia após dia, “sobressaindo da paisagem” (palavras dele…)… Bastava para ele, ao que parecia, saber que eu “estava lá”… E isso me incomodava.

O que talvez explique minha aversão por reflexos de vitrines, espelhos e quadros com retratos… O via me vendo sempre neles… Talvez por isso que eu sonhava todas as noites com ele. Ou quando me lembrava dos sonhos – e quando me contorcia nos pesadelos – era ele a personagem onipresente, o maestro que regia o andamento das coisas, eu como sua espécie de criada, sempre o seguindo…

Já experimentou camomila? O chazinho?… Dan o odiava ao asco. Tinha engulhos quando me via saboreando uma salada. Tolerava biscoitos, pães e refrigerantes (que era o que levávamos em nossos idílicos piqueniques), mas de resto me deixava a sós com minhas comidas e ia fazer qualquer coisa longe que eu ignorava. Já o vi comendo carne – sempre muito mal passada, basicamente seu único sustento, além de água de torneira.

Outra coisa que me assustava era a relação que ele tinha com crianças. As mais novas.

Ele invariavelmente as estava abraçando e embalando, quando conseguia por as mãos em alguma… até que elas iniciassem um leve sono em seus braços… enquantos ambos sorriam em silêncio… Não sei que fim levaram essas pobres criaturas, se bem que imagino, caso queira um dia ouvir…

Tenho vontade de chorar quando penso em crianças. Penso na mãe que eu poderia ter sido… se não fosse o Dan… e em todas as vidas que eu precisei extinguir – seis ao todo – para que a continuidade desse pesadelo fosse interrompida de uma vez por todas… Pois foi no meu segundo aborto que eu deixei Dan.

Entenda, não sei explicar por que eu fora a escolhida, mas talvez a vida que me fora dada nesse planeta, todas as leituras e conversas que tive com tantas pessoas antes de conhecer Dan me capacitaram a tolerar certas coisas… e a absorver fatos inexplicáveis que dele viessem. Não quero com isso dizer que não sinto medo. Pois sinto pavor.

Porque por quatro vezes engravidei de Dan enquanto estivemos separados… e quatro vezes abortei, artificialmente.

Não me olhe assim. Era o que eu tinha que fazer. Está me olhando igual as irmãs Carmelitas…

Claro que procurei ajuda. Meu psiquiatra morreu esmagado debaixo de um trem por isso. Ninguém viu, mas oficialmente, disseram que escorregou na gare…

Chocado? Pode ter certeza de que ele ficou mais ainda com a estória das gestações espontâneas, que naquela época ainda eram duas…

O visitei poucas vezes, na cidade aqui vizinha. Bastou. Me diagnosticou inicialmente esquizofrenia persecutória com agravantes de auto-mutilação ocasionais e estados alucinatórios recorrentes seguidos de… Chega, não?… Mas depois da quinta sessão não quis mais pagamento, e marcava ele mesmo as entrevistas, porque estava usando a estória para seu mestrado. Dirigia 320 quilômetros três vezes por semana pra isso…

O dia em que Dan me revelou o porquê de seu aparecimento em minha vida eu já me sentia completamente dependente dele. Ele nem precisava tê-lo dito. Podia ter continuado com seus planos e me poupado da estória que eu o seguiria, entregue a ele que estava. Já não tinha mais família e morávamos juntos e sós num quarto de hotel de fundos (nunca soube exatamente como Dan conseguia arcar com as diárias; eu só observava o gordo gerente do hotel todo sorridente quando passava por nós e nunca lhe perguntei nada a respeito…).

Bem é incomum porque não pertence a esse mundo, embora deseje que o mundo lhe pertença… E para isso ele precisa que sua descendência passe através de um corpo feminino, mas não qualquer corpo feminino. Ele me disse que eu tenho a idade certa, o Ph certo, e uma combinação adequada de hormônios associados a uma mínima mutação provocada pela luz solar (nunca gostei de tomar sol… Sou branca assim desde sempre) que me faculta ser-lhe a “esposa perfeita”, a “mãe de uma nova raça”, a “incubadora da semente de uma nova ordem mundial”…

Que sorte, hein?…

Não sei… talvez tenha sido esse o único “erro” que ele cometeu: ter me contado. Ter se… revelado. Eu então não teria reagido e… fugido.

Com isso, evitei que o céu e a terra se invertessem. Pois Dan precisa apenas de mim; somente de mim. Mas é a única coisa que não terá.

Engraçado, não?… Eu ser uma heroína mundial sem ser reconhecida como tal… porque não posso sair daqui!… Pois enquanto eu aqui permanecer, protegida por essas paredes, neste terreno santo, Dan nunca poderá me tocar; nunca terá a carne de que precisa para… se perpetuar, para espalhar pela Terra seus malditos descendentes. Foi meu falecido psiquiatra quem, no seu último dia vivo, me sugeriu ir pra bem longe e tentar refazer minha vida sem a “influência” de Dan…

E eu bem que tentei… Ah, se tentei!…

Dan está aí fora agora. Em algum lugar. Não entra aqui porque não pode. Lhe é proibido. A única vez que o tentou – a única vez que o vi minimamente desesperado para tentá-lo – houve um princípio de incêndio no côro e dois anjos barrocos caíram dos socos espatifando meia dúzia de fileiras de bancos. Mas as paredes resistiram. As vozes das freiras rezando não desafinaram, eu escutei…

Claro, isso não se reverte em nenhuma vantagem para mim; assim eu estou presa aqui para o resto (resto?…) da minha vida, iluminada por velas de sêbo e vitrais de cacos de garrafa, comendo pão caseiro e leite quase azêdo de um par de vacas magras que nunca vejo. Minhas roupas vão puindo nesse ínterim e se você me perguntar o que está acontecendo no mundo eu não vou saber dizer. Tentaram me converter. Me fazer esposa de Deus. Oficialmente não o sou. Só na prática é que sim. Não me importo. Aprendi a rezar. Me acalma. Pelo menos.

O que farei da minha vida?… O que você faria, se tivesse alguém sempre em seu encalço, alguém de quem nunca poderia se livrar, mesmo se morresse?… Tenho certeza de que nunca mais se queixaria da solidão…

Sim, estou bem perto da solidão aqui, quando não ouço o vento chamando meu nome pelo diapasão de janelas entreabertas; ou quando não durmo – quando Dan me aparece todo se rindo, certo de que eu não vou lhe resistir por muito mais tempo…

Eu disse que já vão lá 11 anos… Pra Dan isso não significa nada; pra mim, sim. Envelheci pelo menos o dobro, acredite… Mas se pude ficar 11 anos desejando não vê-lo, posso fazê-lo por mais 10. Vou renovando, assim, minha decisão de não-viver, experimentando algo só semelhante a uma vida normal, com policiamento de pensamentos, controle de desejos e automatização de atitudes. Fechando-me em mim mesma, consigo ter de volta um mínimo da naturalidade que perdi… precisamente naquele parque invernal quando sorrimos, eu e Dan, um pro outro.

Estou feliz em não ceder mais.

Estou feliz em falar com alguém de fora de novo…

Mas estou sinceramente preocupada contigo.

… Sabe qual é minha maior vontade hoje, agora? Ver um horizonte. Não importa se sêco ou gelado, não faz mal se ondula como o mar ou se é estática visão entre vales.

Queria só ver um de novo.

 

Daria minha vida.

 

***


Críticas e elogios

23/09/2013

O melhor elogio – incluindo aí o seu oposto – vem, não de um cérebro bem dotado, mas de um cérebro atento.
Cerquemo-nos, portanto, de cérebros atentos!


Haicai Tardio

30/05/2013

Ganhou tua rubrica
Este desatino.
Benvindo destino.

 


Gerundiando

02/04/2013

Preciso do passado. Agora, comigo.

É triste isso, já que engessante pra evolução a que todos nós nos pretendemos inconscientemente. Tô correndo, continuo seguindo, mas… mas volta e meia lá estou a olhar pra trás de novo, não desafiando alguém a me transformar em sal; mas antes relembrando; antes desejando reexercitar o músculo do bem querer atrofiado há muito por escolha própria.

Arrependimento? Ninguém se arrepende de folhear um álbum de fotografias antigas, embora o faça com aquela ponta de iceberg submerso de vontade de que aqueles tempos voltem mais uma vez. É por aí. 

Você – exato: você! – é, por tudo e apenas isso, uma foto decana que eu vou guardando. Que eu vou gerundiando até não sei mais quando.


Cara a Cara

16/01/2013

O que em mim, afinal, te assusta, menininha, já que foi a besta fera do teu medo quem devorou o tempo, bebeu-lhe o sangue e chupou seus ossos, nos colocando eternamente em opostos?

Não dá mais pra voltar.

Você não quer mais voltar.

Bem que eu não queria…


Meu Melhor

10/01/2013

Não me intimida tua negação.

(Na) Minha realidade – paralela, que seja –

Eu te chamo e você me beija.


Elucubrações de Ano Novo

28/12/2012

– É muito fácil ser otimista quando tudo vai bem.
– Quando se sai da lama, a lama sai junto, e ninguém quer saber que você já esteve lá um dia. Corolário: rale, rale e rale, e fique quieto.
– Não existe saudade boa: todas as saudades significam perdas, coisas que passaram e que você ainda queria presentes.
– Na vida, não existem só dois lados de uma moeda; a vida é tridimensional; cada vez que se procura, se encontra uma faceta importante e significativa dela.
– Foi, foi mulher quem criou a misoginia. Foi.
– O único prêmio para o bom comportamento na Terra é o dia seguinte.
– Na falta de remédio, a melhor solução para uma dor é uma dor maior.
– Afinal, estamos sozinhos dentro de nossos corpos; acostumar-se com a solidão talvez seja o melhor dos aprendizados.
– Na verdade não importa o que lhe desejem pro novo ano… contanto que tenha ar condicionado…


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