Duo

18/03/2009

 … Talvez eu goste do que estou fazendo…
Talvez formemos o par perfeito de jarra e rosa
Pois você é igual demais à mim…
Se não verossímil,
Misteriosa…!

Me persegue sem que eu a veja
Sem que a ouça.
Passos leves na rua escura…
Presença silenciosa enquanto seco a louça…

Mas porque gosto tanto de você?!…

Há um quê de canalhice
Nesse soberbo pastiche
Que eu mesmo criei;

Que morrerá de forma trágica
Ou na indiferença
Tudo igualzinho como sempre sonhei.

Egoísta, só peço aos céus meu bem estar;
Não quero ter um preço a pagar por esta estranha sanidade.
Vislumbro seu alcance,
Por acaso e de relance,
No imaginário das pessoas.

E esse escarro tipográfico,
Em contraste com meu caráter afásico,
De verdade me e te constrói
Em vez de ser só defeito.

Roubo e traio em coxa prosa
Pra não morrer.
E sinto tanto não saber
Viver de outro jeito.

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Road End

17/03/2009

Bem aprendido: quando não se consegue mais rir junto, é sinal inequívoco de que um relacionamento acabou.


Fábula Improvável

12/03/2009
Vela apagada, bolo cortado, farelo juntado, prato lavado, lá foi ela comemorar seu aniversário dormindo. Teve espécie de pesadelo, sonho, se não ruim, estranho, não por ter comido demais ou mal, mas talvez por ter se alimentado durante muito tempo de repetidas lembranças deambulatórias.
Enfim, sonhou profundamente com um escorpião.
Negro.
Oito pernas.
Seis olhos.
E um ferrão.
Era seu, dizia de estimação.
A vizinhança a alertava: “Perigo!”, mas como ligar para isso se o animal se retezava de prazer quando ela acariciava os vários anéis do seu corpo, arranhando sua digital na agulha do veneno toda manhã dizendo bom dia? Por que se preocupar com um vulto que a acompanhava impassível em seus passeios e conhecia de cor o caminho de volta, retornando pelos mais recôndidos buracos de sua casa, direto para o seu colo? Por que tremer ante seu brilho carnívoro, já que sempre retornava com uma flor minúscula nas poderosas pinças? Sorte? Incautela? Não, sonho. E em sonho tudo pode. Mau vira bom. Porque nele o escorpião negro lhe contava estórias. Nada inteligível; só inaudíveis estalidos desconexos que ela organizava do seu particular jeito e interpretava como relatos em morse de batalhas épicas pela sobrevivência através das fímbrias das eras vagando por ensombreadas umidades. E, nas noites, ele era como que uma tatuagem monocromática em seu colchão.
Imóvel e escuro negativo astrológico.
O relógio desperta na cômoda.
Ela se vira e espreguiça.
E sente na costela uma acutilância.
Vêm à mente num átimo o sonho fresco da madrugada, o coração explodindo com uma incômoda e nebulosa impressão de traição, mas… não. Não. O que há é uma mancha escura de bruços esmagada entre as dobras de linho e seda, esvaída de seus líquidos, descarregando em oito patas seus últimos impulsos vitais.
Nas terras urbanas e caóticas da vigília, de superações diárias, de despertares afóbicos regados pelo onírico, bem e mal são presas iguais, sempre idênticas, do acaso; e um presente de aniversário pode muito bem travestir-se de se continuar simplesmente vivo.
E mesmo assim, no leito de morte rendado do escorpião negro, ela chora.

***

Duas linhas da aniversariante do dia geraram esse post. Doce aniversário para ela.

 


Puída Metáfora do Jardim para 8 de Março

09/03/2009
Quem é você?
É um crisântemo minimalista num vaso ou um lírio que a brisa suavemente verga?
É rosa? É tulipa? É campo de madressilvas até onde a vista, apertada, enxerga?
E que brilho é esse, acetinado?!
E teu perfume ventado? Adocicado? Almiscarado? Ou um misto de aroma orvalhado?
Se tem espinho, eu não vejo… até me espetar; tarde demais p´rum coração a fim e que tem exato a sua cor com nome que é parecido de flor: carmesim.
Quem és tu? Ipoméia de beira de rio? Margarida? Cravo? Camélia? Eterna sempre-viva? Ou não?
Um frágil dente-de-leão?…
Não importa; sei que, dos que já vi, és ´mais bem feito buquê.
Além: és floração. És mulher.
És, enfim, a resposta que procuro para os meus onipresentes porquês.