Fábula Improvável

Vela apagada, bolo cortado, farelo juntado, prato lavado, lá foi ela comemorar seu aniversário dormindo. Teve espécie de pesadelo, sonho, se não ruim, estranho, não por ter comido demais ou mal, mas talvez por ter se alimentado durante muito tempo de repetidas lembranças deambulatórias.
Enfim, sonhou profundamente com um escorpião.
Negro.
Oito pernas.
Seis olhos.
E um ferrão.
Era seu, dizia de estimação.
A vizinhança a alertava: “Perigo!”, mas como ligar para isso se o animal se retezava de prazer quando ela acariciava os vários anéis do seu corpo, arranhando sua digital na agulha do veneno toda manhã dizendo bom dia? Por que se preocupar com um vulto que a acompanhava impassível em seus passeios e conhecia de cor o caminho de volta, retornando pelos mais recôndidos buracos de sua casa, direto para o seu colo? Por que tremer ante seu brilho carnívoro, já que sempre retornava com uma flor minúscula nas poderosas pinças? Sorte? Incautela? Não, sonho. E em sonho tudo pode. Mau vira bom. Porque nele o escorpião negro lhe contava estórias. Nada inteligível; só inaudíveis estalidos desconexos que ela organizava do seu particular jeito e interpretava como relatos em morse de batalhas épicas pela sobrevivência através das fímbrias das eras vagando por ensombreadas umidades. E, nas noites, ele era como que uma tatuagem monocromática em seu colchão.
Imóvel e escuro negativo astrológico.
O relógio desperta na cômoda.
Ela se vira e espreguiça.
E sente na costela uma acutilância.
Vêm à mente num átimo o sonho fresco da madrugada, o coração explodindo com uma incômoda e nebulosa impressão de traição, mas… não. Não. O que há é uma mancha escura de bruços esmagada entre as dobras de linho e seda, esvaída de seus líquidos, descarregando em oito patas seus últimos impulsos vitais.
Nas terras urbanas e caóticas da vigília, de superações diárias, de despertares afóbicos regados pelo onírico, bem e mal são presas iguais, sempre idênticas, do acaso; e um presente de aniversário pode muito bem travestir-se de se continuar simplesmente vivo.
E mesmo assim, no leito de morte rendado do escorpião negro, ela chora.

***

Duas linhas da aniversariante do dia geraram esse post. Doce aniversário para ela.

 

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One Response to Fábula Improvável

  1. Clarinha merece isto e muito mais!
    Ótima fábula!

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