Suficiências

17/04/2009

Há muito ando, e canso.
Há muito cresceram meus dentes de ciso.
Bastante vi
Pouco sei;
(Porque) Não alcancei (ainda) tudo o que de fato preciso.

Mas vejo o Sol
E tenho a terra que piso
Por um segundo a cada passo.
E a cada passo sou senhor,
Benévolo rei, do meu adorado mundo impreciso.

Então devo mesmo dissecar sentimentos
Vasculhar todos’ cantos em busca
Da correta seta
Ou do especializado conhecimento
Para ser aclamado poeta?…

Necessito tanto assim do latim
Ou da Ciência
Ou de qualquer outra intelectual excrescência
Para viver ao pleno
Meus sonhos e desejos?…

Não tanto.
Descobri que me basta o arrebatamento.
Com ele sou um.
Com ele sou único.

Com ele é que,
Silenciosamente,
Te redijo este manco mas honesto soneto.

 


Sobre invenções

16/04/2009

Um historiador elegeria o estribo de montaria como a invenção mais importante do mundo; desde 300 A.C., vindo da Índia, este acessório ajudou a estabilizar cavaleiros de exércitos em suas selas, o que mudou em pouco tempo e completamente a geopolítica do planeta.
Já um químico diria que foi o plástico, nascido em meados do século XIX, inglês de berço; junto com os hors concours cimento, madeira, ferro e vidro, essa onipresente matéria-prima da civilização é, entretanto, infinitamente mais versátil, funcional na terra, água, ar… e no espaço.
Mais abrangente, um médico votaria fácil no processo de purificação da água do Tâmisa, de 1829, como a fronteira entre saúde pública moderna e a alta mortalidade sanitária que antes vigorava.
Também temos a internet, que um educador chamaria simplesmente de revolução da informação, de conhecimento massivo acessível a preço irrisório e que ainda não mostrou toda a sua potencialidade.
Mas cada um desses votantes um dia brigou com suas esposas.
E foram dormir em sofás.
Na manhã seguinte, no topo de suas listas de melhor invento, encarapitada em dezenas de nomes riscados, figurava a palavra travesseiro.


Impressão escura…

03/04/2009

… Às vezes parece que todos os livros já foram escritos… que todas as fotos já foram feitas… e que já sangraram todos os poemas.
Pelo menos resta esse persistente ronronar do motor da geladeira.


Dito e feito

03/04/2009

A melhor coisa a fazer é sempre uma estranha forma de anulação.


Da série “O que dizer quando as coisas não saem do jeito que esperou?”

01/04/2009

Quando uma depressão extra tropical se abate ao caminho de sua entrevista de emprego:
– Preciso rever urgentemente minhas cotas de carbono.

Quando a ligação por celular se perde no limbo eletrônico da sua operadora:
– (Qualquer palavrão. Liberado)

Quando o cliente refuga ante seu orçamento enxuto:
– (Sorrindo, e tentando parecer sincero) Boa sorte! (Levante e saia)

Quando cai um dente na lanchonete:
– (Cuspindo o dente num guardanapo e guardando discretamente no bolso) Nossa, brinde, veio uma azeitona na coxinha!

Quando a sua ducentésima milionésima aposta na loteria nem passa perto do resultado:
– (Qualquer palavrão. Liberado)

Quando o casamento soçobra:
– Aprendi muita coisa (mas só diga isso caso tenha aprendido MESMO algo).

Quando o martelo encontra um dedo e não o prego:
– (Qualquer palavrão. Liberado)

Quando os parafusos do móvel novo resistem às roscas:
– (Qualquer palavrão. Liberado)

Quando a noite com a garota foi especialmente desastrosa:
– É com a prática que se atinge a perfeição.