Obcecação

30/11/2010
 

… Ela começa como se fosse uma reação do corpo a uma pancada forte; um latejo toráxico fantasma; uma pulsação metálica interior, vez ou outra eriçada de pontas, felipana falange em patrulha, marchando em silêncio. É como um vulcão abissal que deseja virar ilha continental: borbulha poderosamente, ferve as profundezas, mas não marulha a superfície. É entidade açougueira, armada de faca tentando abrir caminho de dentro. É semelhante a um bilhão de soluços contidos emitindo minúsculas borbulhas que, pressionadas, singram arranhando os interstícios do peito, sublimando-se antes de se libertar. É febre fria, crassa e crônica. Cheia e vazante, de noite e de dia.
E é dor, enquanto viva. 
 


Punk Pôlder

24/11/2010

 Sou maior que Rotterdam!
Não quero ir a Eersel!
Odeio Amsterdam,
Schiedam, Soest e Capelle!

Sou maior que Heeten!
Enchi de Enschede!
Não ligo se as hordas de Rheden
Invadam Gouda, Lopik ou Oegstgeest!

Nem Deventer, nem Oosterhout!
Queimem Maasdriel!
No seu ouvido te berro bem alto
Tytsjerksteradiel!!

Sou maior que Meppel e Venlo!
Sou bem maior que Warnsweld!
Mas anarquicamente só poupo Utrecht,
Mijn lieve wens eb!


O Colecionador

16/11/2010


Ele começou com um selo que virou cem em sete dias. Então vidrou-se por calendários com pin ups, por canetas esdrúxulas e por seixos vulcânicos, esse trio, ao mesmo tempo. Também poderiam ter sido borboletas, daquelas que voam paralizadas em gavetas, ou até mesmo chaveiros ou moedas, mas o que ele escolheu depois foram latas, centenas, de cerveja, mesmo as baratas; até que tomou porre delas. E finalmente variou, tentando etiquetar suas emoções – achando que nesta coleção encontraria um fim, contidas em caixas num armário modesto, todas organizadas, nomeadas, identificadas, congeladas.
Controláveis.
Vitrináveis.
Ledo engano.
Seus medos, sólidos demais, perfuravam o papelão… Sua tristeza, artesiana, encharcava todos os cantos e fazia bolor… Sua alegria, extremamente volátil nas condições de armazenamento, escapava sempre por qualquer fresta… Sua raiva, indomada, selvagem, nunca capturada, só o tocaiava… Seu amor, insaciado, invariavelmente definhava, não sobrevivia… E os melhores exemplares que conseguia do seu prazer vinham com pedaços faltantes.
Foi então que percebeu que, durante toda sua vida, fora um compilador voraz de coleções incompletas.
Talvez o melhor do mundo nisso.
Mas… era hora de mudar de novo.


Sim

08/11/2010

Sim.
É tudo que tenho a dizer.
Sim, acato teus atos
Discordando em silêncio, de fato,
Concordando, exausto, em mentir que amar é,
Sim, meu erro maior.
Meu infausto.

Sim, ao teu pedido velado de que´u morra
Ou mate o que está dentro de mim. Sim!
A esta bruta realidade eu me rendo
E dou o fim esperado, exigido, clamado por ti…

Sim! Pra que não (te) reste remorso!

Sim! Pra diluir a (minha) saudade!

Sim! Pra que a luta não se torne guerrilh´em cidade
Ou batalha invernal, crudelíssima…!
Sim, eu te grito, exaurido!
SIM!
… sim…!

Sim.


Hoje não é um bom dia

01/11/2010


Chove; e é algo fácil desviar das poças e das pessoas nas calçadas – arrisco dizer divertido, até. É bom dar corridinhas de marquise em marquise, se deter e esperar se secar, conversando amenidades com alguém igualmente em fuga; é bom ter a chuva – essa entidade impessoal – como responsável pelos nossos pequenos atrasos e transtornos (por causa dela os perdões vêm rápido…). É gostoso ouvir o tamborilar que a precipitação faz nas diferentes superfícies, observar como ela carreia a fuligem urbana, clareia a visada, enverniza as folhagens e higieniza as alvenarias. E como se não bastasse, vem com trilha sonora, um backgroud de chiados de centenas de radiais zunindo no asfalto, indo e vindo produzindo coreografia modernosa de vaporosos chafarizes.
Mas hoje, é necessário afirmar, não é um bom dia: pois você, longe, longe demais, não está tomando esta chuva comigo.