Anotação de Viagem

19/05/2011

O voo não foi demorado. Pelo menos foi o que ele achou quando finalmente, depois de tanto tempo de medos e hesitações, se encontraram no saguão do aeroporto pela primeira vez. Para ele o traslado onírico levara somente algumas dezenas de minutos, sem qualquer escala; mas para ela seguramente décadas haviam se passado. Ele não entendeu direito como a reconheceu, mas em sua cabeça era ela, sem sombra de dúvida, travestida de senhora de toucado grisalho tentando isolá-lo da multidão com aqueles olhos nacarados piscando atrás de lentes fotocromáticas grossas demais. Trocaram cumprimentos desconfortáveis diante daquela situação evidentemente kafkiana e justamente por isso ele não pode deixar de perceber a secura e a fragilidade da pele da mão dela, pejada de sinais senis e esmalte descascado; a outra mão nodosa, que raspou remelas, tremia. Havia um hálito de comida recentemente roída nas proximidades e o sorriso postiço que ela lhe ofereceu lhe corroborou a suspeita de que deveriam ter resolvido suas pendengas há muito, muito tempo atrás.
E que agora, apesar de ser somente 18:20 de uma noite de uma sexta era, miseravelmente, tarde demais.
A respiração dela, que ofegava, ensaiou o que talvez seria um pedido de desculpas aos ouvidos dele, mas ele disse que não precisava, já sabendo que ela sentia que isso não importava – ao contrário da bengala encostada nos assentos, que importava, ao contrário da parabólica cifose adiantada, que também importava, ao contrário de uma libido que não mais existia, humus de curiosidade em que se transformara, e que também por demais importava.
Mas era tarde demais.

O voo de volta retornou vazio, apenas ele viajando com sua família completa de irrealizações. Lá fora, se ele estivesse vendo, nuvens geladas se distendiam quilometricamente dentro da noite.

Anúncios